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Tradições discursivas em jornais paulistas de 1854 a 1901: Gêneros entre a história da língua e a história dos textos

Title: Tradições discursivas em jornais paulistas de 1854 a 1901: Gêneros entre a história da língua e a história dos textos

Scientific Study , 2010 , 272 Pages

Autor:in: Alessandra Castilho da Costa (Author)

Romance Studies - Portuguese Studies

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Summary Excerpt Details

Existem diferenças entre a língua de cada geração. Os pais não falam a mesma língua dos filhos, tampouco a mesma língua de seus próprios pais. Algumas pessoas até mesmo se preocupam com o “declínio” da língua portuguesa1. Segundo suas percepções, os mais jovens não sabem falar português e a língua portuguesa está se deteriorando. Na verdade, a língua portuguesa não se torna a cada geração menos útil ou funcional. Essa sensação de “declínio” provém de um simples fato: as línguas mudam. As línguas naturais estão sujeitas à variação: não falamos do mesmo modo, por exemplo, em São Paulo, em Minas Gerais, no Rio Grande do Norte (variação diatópica). Há maneiras de falar mais formais e outras mais informais e populares (variação diastrática). Também não falamos do mesmo modo em uma palestra proferida na universidade e em uma conversa com amigos (variação diafásica). Estudar as mudanças lingüísticas do Português Brasileiro é também estudar a história dessas variações. Contudo, reside aí um problema: a língua é colocada em funcionamento por meio de textos e gêneros e existe uma ligação entre a variante lingüística utilizada e o texto que concretiza essa variante. Cada gênero textual privilegia a utilização de uma determinada variante lingüística e de determinadas formas lingüísticas. O que vale dizer: a história da língua está ligada à história dos textos e dos gêneros. É por meio dos gêneros textuais que fenômenos lingüísticos são criados, adotados, disseminados, suprimidos, apagados, reabilitados. Essa observação traz uma conseqüência metodológica relevante para a Lingüística Histórica: não se pode estudar a evolução de uma língua a partir de qualquer texto. [...]

Excerpt


Conteúdo

1 Introdução: mudança da língua, mudança dos textos

2. Pressupostos Teórico-Metodológicos

2.1 Origens do Modelo de Tradições Discursivas: a Lingüística do Texto segundo Eugenio Coseriu

2.1.1 Os níveis do lingüístico e a linguagem como atividade, conhecimento e produto

2.1.2 Três tipos de Lingüística do Texto

2.1.3 A autonomia do texto e as tradições textuais

2.2 O Modelo de tradição discursiva

2.2.1 O conceito de tradição discursiva

2.2.2 TD entre repetição e evocação

2.2.3 Gêneros textuais como famílias de texto

2.2.4 Processos de formação de TD

2.2.5 A queda das tradições culturais

2.2.6 O contínuo de proximidade e distância comunicativas

2.2.7 Variação lingüística

2.2.8 Tradições discursivas e conhecimento partilhado: memória coletiva, memória cultural e memória comunicativa

3 Descrição do corpus e da metodologia de análise

3.1 Tradições discursivas e organização de um corpus diacrônico

3.2 Corpus de jornais

3.3 Extensão e organização do corpus

3.4 Reconhecimento das famílias de textos

3.5 Transcrição e digitação dos dados

3.6 Critérios de análise

3.6.1 Dêixis

3.6.2 A dimensão junção segundo Raible (1992)

4 Análise do corpus

4.1 Da carta para o jornal

4.2 A influência do tipo textual “carta do correspondente” na notícia

4.3 A notícia

4.3.1 Variantes de notícia de 1854 a 1901

4.3.2 Regularidades nas notícias de 1854 a 1901

4.3.3 O uso dos pretéritos perfeito e imperfeito como marcas de duas TD nas notícias

4.3.4 Pessoalização e impessoalização como sintomas de TD: uso de nós em contraposição a diferentes estratégias de apagamento do sujeito nas variantes de notícia

4.4 Anúncio publicitário

4.4.1 A São Paulo do século XIX através dos jornais

4.4.2 TD na história do anúncio publicitário

4.4.3 O anúncio publicitário entre as variantes da classe de textos “anúncio”

4.4.4 Tradições e transformações do anúncio publicitário

4.5 Carta do leitor

4.5.1 Identificação das cartas de leitor

4.5.2 Análise da estrutura composicional

4.5.3 Diferentes funções das cartas de leitores

4.5.4 Desenvolvimento temático: narratividade e argumentatividade

4.5.5 A linguagem “virulenta” nas cartas de leitores

4.6 Do espectro de gêneros textuais nos jornais analisados

5 Considerações finais

6 Referências bibliográficas

Objetivos e Temas da Pesquisa

O presente estudo tem como objetivo traçar a evolução dos gêneros textuais presentes nos jornais paulistas "Correio Paulistano" e "A Província de S. Paulo" entre 1854 e 1901, investigando como as tradições discursivas moldam a mudança linguística e como a história da língua está intrinsecamente ligada à história dos textos e gêneros. Através de uma abordagem diacrônica e comparativa, a obra analisa a constituição de gêneros como a notícia, o anúncio publicitário e a carta do leitor, observando suas transformações estruturais e funcionais ao longo do tempo.

  • Aplicação do modelo de Tradições Discursivas de Eugenio Coseriu e Peter Koch para análise diacrônica.
  • Evolução e transformação dos gêneros jornalísticos (notícia, anúncio, carta do leitor) em cortes históricos de 1854, 1875 e 1901.
  • Análise da relação entre a "economia comunicativa" e a organização dos textos jornalísticos.
  • Uso do contínuo de "proximidade e distância comunicativas" para caracterizar a variação linguística.
  • Estudo das técnicas de junção e modelos argumentativos como sintomas de tradição discursiva.

Auszug aus dem Buch

2.2.3 Gêneros textuais como famílias de texto

Assim como apontado por Wilhelm (1996: 1) em relação aos panfletos italianos do período de 1500-1550 que analisa, podemos afirmar que documentos históricos, tais como os jornais, em nosso caso, permitem-nos conhecer os processos de transmissão de informação de sincronias do passado. Esse estudioso identifica nos panfletos do século XVI o encontro de tradições cultas e populares e afirma que esse material revela fragmentos do espectro de gêneros da época e, pela análise das formas lingüísticas que privilegia, manisfesta também o sistema de variedades do italiano na segunda metade do século XVI. É nesse sentido que Wilhelm defende que o estudo da história dos gêneros é o fundamento da pesquisa de processos históricos da língua.

Partindo da tradicional distinção da lingüística textual alemã entre os conceitos de gênero textual (Textsorte) e gênero literário (Gattung), Wilhelm oferece uma revisão desses conceitos (cf. 1996: 3-11). O autor propõe um novo entendimento dos termos, caracterizando o gênero textual (Textsorte) como uma categoria puramente teórica, proposta por linguistas a partir de traços constituintes de uma classe de textos, e assinalando ao termo Gattung a função de caracterizar gêneros históricos (não somente gêneros literários), isto é, qualificando a Gattung como um dado concreto percebido e denominado pelos próprios participantes da comunicação. Dado que o conceito de Gattung como gênero literário e de Textsorte como gênero textual estão fortemente estabelecidos na lingüística textual alemã, a proposta de Wilhelm de uma nova definição desses termos parece-nos trazer pouca vantagem terminológica. Entretanto, o autor apresenta uma revisão crítica do conceito de gênero textual do ponto de vista do aspecto de sua historicidade.

Resumo dos Capítulos

Introdução: mudança da língua, mudança dos textos: Apresenta a relação fundamental entre a história da língua e a história dos gêneros textuais, situando o problema metodológico de estudar a evolução linguística através de textos específicos.

Pressupostos Teórico-Metodológicos: Define as bases teóricas do trabalho, focando no modelo de Tradições Discursivas proposto por Coseriu, Schlieben-Lange e Peter Koch como ferramenta para a análise histórica dos gêneros.

Descrição do corpus e da metodologia de análise: Detalha os critérios de seleção das edições dos jornais paulistas e as normas de transcrição, além de explicar os critérios linguísticos (dêixis, junção) utilizados na pesquisa.

Análise do corpus: Examina detalhadamente a evolução histórica dos gêneros "notícia", "anúncio publicitário" e "carta do leitor", analisando suas transformações estruturais, uso de formas verbais e estratégias argumentativas no período 1854-1901.

Considerações finais: Sintetiza os resultados da pesquisa, comprovando a hipótese de que a evolução da língua não é homogênea e está ligada às tradições discursivas e à organização dos gêneros textuais.

Referências bibliográficas: Lista as obras teóricas e documentos históricos utilizados para fundamentar a tese da autora.

Palavras-chave

Tradições Discursivas, Linguística Histórica, Português Brasileiro, Gêneros Textuais, História do Português Paulista, Anúncio Publicitário, Notícia, Carta do Leitor, Economia Comunicativa, Proximidade e Distância Comunicativas, Famílias de Texto, Identidade Diacrônica, Junção, Modelo de Argumentação, Memória Cultural.

Perguntas Frequentes

Sobre o que é, fundamentalmente, esta obra?

O livro investiga a relação histórica entre a evolução dos gêneros textuais e a história da língua portuguesa (especificamente o Português Paulista), utilizando o modelo teórico de Tradições Discursivas para demonstrar que a mudança linguística não ocorre isoladamente, mas é mediada pelos gêneros e tradições de escrita.

Quais são os principais campos de estudo abordados?

Os pilares teóricos incluem a Linguística Textual, a Pragmática Histórica e a Linguística Variacional, aplicada a um corpus de jornais paulistas do século XIX, conectando esses estudos à história cultural e social da época.

Qual é a principal pergunta de pesquisa ou objetivo?

O objetivo é traçar a evolução de gêneros como a notícia, o anúncio e a carta de leitor entre 1854 e 1901, revelando como as tradições discursivas (regras de escrita e gêneros) se transformam e, consequentemente, impulsionam ou refletem mudanças na língua portuguesa.

Qual o método científico aplicado?

A autora emprega a análise do discurso em uma perspectiva diacrônica, baseando-se no modelo de Tradições Discursivas de Peter Koch e Eugenio Coseriu. A análise foca em critérios linguísticos como a dêixis (referenciação) e a dimensão junção (modelos de orações e conectores) para observar mudanças na "proximidade" e "distância" comunicativas dos textos.

O que o corpo central (Hauptteil) aborda especificamente?

O corpo central analisa a transformação dos gêneros "notícia" e "anúncio publicitário". A notícia passa de uma organização por "proveniência" e "ordem de chegada" para uma estruturação baseada em princípios temáticos e liderada pela necessidade comercial. O anúncio publicitário evolui de textos meramente descritivos para estratégias argumentativas persuasivas, utilizando "topoi" (lugares-comuns) de prestígio, autoridade e emoção.

Por que a obra é caracterizada por palavras-chave como "famílias de texto"?

Porque o estudo defende que os gêneros não possuem características fixas ou essenciais. Seguindo Wittgenstein e o conceito de "semelhança familiar", os gêneros são vistos como séries históricas de textos que compartilham características, permitindo uma identidade diacrônica mesmo diante de profundas mudanças estruturais.

Como a autora explica a mudança dos anúncios de 1854 para 1901?

Ela observa um deslocamento de anúncios puramente informativos (que apenas descrevem a existência do produto) para anúncios persuasivos. Em 1901, nota-se o aumento do uso de estratégias emotivas, testemunhais e de autoridade, além da inserção de ilustrações, o que reflete a sofisticação dos hábitos de consumo e o surgimento de uma mentalidade industrial.

Qual o papel das cartas de leitor na pesquisa?

As cartas de leitor são analisadas como um espaço de "debate público" e opinião, onde se observa a transição de um jornalismo panfletário e pessoal para um modelo de debate mais argumentativo, sendo fundamental para entender a participação ativa do leitor na construção do jornal no século XIX.

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Details

Title
Tradições discursivas em jornais paulistas de 1854 a 1901: Gêneros entre a história da língua e a história dos textos
College
University of Sao Paulo; Department of philosophy  (Letras e Ciências Humanas)
Course
Língua Portuguesa e Filologia
Author
Alessandra Castilho da Costa (Author)
Publication Year
2010
Pages
272
Catalog Number
V167293
ISBN (eBook)
9783640837953
ISBN (Book)
9783640838585
Language
Portuguese
Tags
tradições discursivas gêneros textuais jornais paulistas
Product Safety
GRIN Publishing GmbH
Quote paper
Alessandra Castilho da Costa (Author), 2010, Tradições discursivas em jornais paulistas de 1854 a 1901: Gêneros entre a história da língua e a história dos textos, Munich, GRIN Verlag, https://www.hausarbeiten.de/document/167293
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